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IA no ciclo de receita: o ganho está em evitar a glosa, não em recorrer dela

A inteligência artificial mais rentável do hospital não está na clínica, está no faturamento. E o dinheiro aparece antes de a conta sair, não depois que a operadora glosa.

IA no ciclo de receita: o ganho está em evitar a glosa, não em recorrer dela
Imagem ilustrativa · banco de imagens

A IA no ciclo de receita é, hoje, o uso de inteligência artificial com retorno mais fácil de medir num hospital brasileiro. A glosa inicial dos hospitais da Anahp chegou a 15,89% da receita bruta em 2024, a maior taxa já registrada pela associação, e o ganho da tecnologia está menos em recorrer da glosa e mais em impedir que ela aconteça.[1]

Quanto o hospital perde com a glosa hoje?

Perde mais do que nunca, e a curva ainda sobe. Nos 85 hospitais privados acompanhados pela Anahp, a glosa inicial passou de 11,89% da receita bruta em 2023 para 15,89% em 2024, o equivalente a R$ 5,8 bilhões de uma receita de R$ 36,7 bilhões.[1] No primeiro trimestre de 2025, o índice chegou a 17%, outro recorde.[2]

A perda definitiva também cresce. A glosa aceita, aquela que o hospital desiste de cobrar, foi de 0,61% da receita bruta de convênios no segundo trimestre de 2022 para 1,97% no mesmo período de 2025.[3] Ou seja, o problema deixou de ser só de fluxo de caixa e passou a corroer margem.

Nos Estados Unidos o diagnóstico é parecido. A taxa média de negativa inicial foi de 11,6% em 2025, e a receita líquida perdida com negativas finais e contas não pagas passou de US$ 38,6 bilhões para mais de US$ 48 bilhões em cerca de 2.300 hospitais.[6] Até o fim de 2023, 15% das contas iniciais eram negadas, ante 9% em 2016.[7]

Glosas no Brasil e negativas nos EUA
IndicadorValor
Glosa inicial, hospitais Anahp (2023 → 2024)11,89% → 15,89%[1]
Glosa inicial, hospitais Anahp (1º tri. 2025)17%[2]
Glosa aceita sobre receita de convênios (2T2022 → 2T2025)0,61% → 1,97%[3]
Negativa inicial média, hospitais dos EUA (2025)11,6%[6]
Receita perdida com negativas e inadimplência, EUAMais de US$ 48 bilhões[6]

Por que prevenir a glosa rende mais do que recorrer?

Porque a maior parte do dinheiro glosado volta, mas volta tarde e caro. Segundo a Anahp, a glosa média gira em torno de 18%, e só cerca de 2% é mantida no fim, depois de um processo longo e burocrático de negociação com as operadoras.[4] A diferença entre os dois números é capital de giro parado, equipe dedicada a recurso e meses de espera.

Boa parte dessa perda nem precisaria existir. Um levantamento da ZG Soluções, empresa que vende tecnologia para o ciclo de receita, estima que 67,9% do volume glosado na base analisada, cerca de R$ 2,84 bilhões, vem de falhas evitáveis: erro de cadastro, preço errado e documentação incompleta.[5] Do outro lado do continente, a pesquisa da HFMA com 519 líderes financeiros encontrou um número da mesma família: documentação incompleta ou imprecisa custa 8,49% da receita total.[8]

É por isso que defendo que o primeiro uso de IA no faturamento seja preventivo. Um robô que acelera o recurso melhora a recuperação; um que impede a conta errada de sair elimina o recurso.

Onde a IA atua em cada etapa do ciclo de receita?

Ela atua nas três pontas do ciclo, mas o retorno é diferente em cada uma. Em todas, o trabalho é o mesmo: ler documentos, cruzar regras e apontar o que vai dar errado antes que dê.

  • Entrada do paciente: elegibilidade, autorização prévia e cadastro, origem de boa parte das glosas administrativas. Nos EUA, cada autorização prévia custa de US$ 6 a US$ 11 ao prestador.[7]
  • Meio do ciclo: auditoria de conta, codificação TUSS e CID e conferência entre prontuário, contrato e tabela de cada operadora.
  • Saída: recurso de glosa, conciliação de demonstrativos e previsão de risco por operadora.

A McKinsey estima que a IA aplicada ao ciclo de receita pode reduzir de 30% a 60% o custo de cobrança dos prestadores.[9] No Brasil, a prioridade dos gestores já aponta para o mesmo lugar: gestão de glosas e recursos é a prioridade de tecnologia para 57% dos executivos ouvidos, e precisão de codificação e documentação para 56%.[15]

Que resultados a IA já mostra nos hospitais brasileiros?

Já há resultados medidos, inclusive no SUS. No Hospital Municipal de Cuité, na Paraíba, a automação da codificação com dupla checagem aumentou em 65% a produção aprovada e reduziu em 56% os itens glosados.[14]

Na rede privada, o Hospital Divina usa um agente de IA que coleta as glosas nos portais das operadoras, cruza com os contratos e sugere o recurso; hoje ele analisa 90% das glosas do hospital.[12] Um projeto da A3Data com agentes de contratos e parametrização registrou retorno de 517% sobre o investimento, com projeção de reduzir de 36% a 54% o tempo dedicado ao ciclo de receita.[13] A ZG relata pilotos de recurso de glosa com até 95% de assertividade, número da própria fornecedora.[5]

Lá fora, a adoção corre na frente. Em pesquisa encomendada pela AKASA à HFMA, 80% dos sistemas de saúde americanos estavam explorando, testando ou implantando IA generativa no ciclo de receita em 2025, contra 58% em 2023.[8]

Por que o hospital sem IA fica em desvantagem?

Porque do outro lado da mesa a automação já chegou. Nos EUA, a Cigna foi acusada de negar mais de 300 mil contas em dois meses com o sistema PxDx, em média 1,2 segundo de análise por conta; a empresa nega irregularidade e diz que a ferramenta não usa inteligência artificial.[10] A UnitedHealth responde a uma ação coletiva que atribui ao algoritmo nH Predict uma taxa de erro de 90%, alegação que a companhia contesta.[11]

São processos em andamento, e não cabe tratá-los como fato provado. Mas o recado para o gestor brasileiro é claro: quando a operadora analisa contas em escala com regras automatizadas, o hospital que ainda confere tudo à mão briga com uma régua desigual. A pergunta deixa de ser se vale usar IA no faturamento e passa a ser quanto custa não usar.

Por onde o CFO deve começar?

Comece pelos dados de glosa que o hospital já tem. Na minha leitura, o roteiro mais seguro tem quatro passos:

  • Mapear as glosas por causa e por operadora antes de comprar qualquer ferramenta. Sem esse retrato, não há como medir o ganho depois.
  • Atacar primeiro as glosas evitáveis, de cadastro, preço e documentação, com validação antes do envio.
  • Exigir números auditáveis do fornecedor: taxa de glosa inicial e final, dias em contas a receber e custo de cobrança, comparados com o período anterior.
  • Manter uma pessoa responsável pela decisão de cobrança e de recurso. A IA prepara e sugere; quem assina continua sendo o hospital.

A IA não vai acabar com a glosa, porque parte dela é disputa legítima de contrato. Mas pode tirar do caminho o que é erro, e isso já é a maior fatia da conta.

Em resumo

  • A glosa inicial dos hospitais Anahp subiu de 11,89% em 2023 para 15,89% em 2024, o equivalente a R$ 5,8 bilhões.[1]
  • A glosa média gira em torno de 18%, mas só cerca de 2% é mantida no fim: o custo maior é o capital de giro preso e o retrabalho.[4]
  • Nos EUA, 80% dos sistemas de saúde já exploram, testam ou implantam IA generativa no ciclo de receita, contra 58% em 2023.[8]
  • No Hospital Municipal de Cuité (PB), a codificação automatizada com dupla checagem reduziu em 56% os itens glosados.[14]

Atualizado em 22 de outubro de 2026.

Fontes

  1. Anahp — Balanço Observatório Anahp – março 2025, mar. 2025.
  2. Economia PR — Disputas entre hospitais e operadoras travam R$ 15 bi, 21 ago. 2026.
  3. Anahp — Balanço Observatório Anahp – 7ª edição, set. 2025.
  4. Anahp — 4º Balanço Observatório Anahp 2024, dez. 2024.
  5. ZG Soluções (fornecedor) — Panorama 2026: por que a perda hospitalar não é clínica, 22 jun. 2026.
  6. TechTarget — Hospitals lost over $48B from claims denials, uncollected bills, 2 abr. 2026.
  7. McKinsey — Three ways to ease the pressure on health system revenue cycles, 10 set. 2024.
  8. HIT Consultant — HFMA Survey: 80% of Health Systems Adopt GenAI for Revenue Cycle as Documentation Risks Rise, 17 dez. 2025.
  9. McKinsey — Agentic AI and the race to a touchless revenue cycle, 9 jan. 2026.
  10. Becker's Payer Issues — UnitedHealth, Cigna face lawsuits over alleged automated claims denials, 27 nov. 2023.
  11. Fierce Healthcare — UnitedHealthcare hit with class action over alleged use of AI to deny Medicare Advantage claims, 15 nov. 2023.
  12. Anahp — E-book Showcase IA 2025, set. 2025.
  13. Medicina S/A — A revolução da inteligência artificial no setor de saúde, 29 set. 2025.
  14. IdeiaSUS/Fiocruz — Aumento na produção ambulatorial com redução de glosas no Hospital Municipal de Cuité PB, 13 mai. 2026.
  15. Healthcare Management — IA chega ao faturamento, 22 set. 2026.
Felipe Dellacqua
Colunista · Tecnologia & Inovação

Colunista da Próxima Saúde. Escreve sobre tecnologia e inovação em saúde.

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