Por que os hospitais americanos decidiram terceirizar o ciclo de receita
Nos Estados Unidos, faturar e receber deixou de ser um departamento administrativo e virou uma operação de escala, tecnologia e dados. O que o hospital brasileiro pode aprender com isso, e o que deve evitar.

A terceirização do ciclo de receita virou regra entre os sistemas de saúde dos Estados Unidos: só em 2025, a Becker's Hospital Review registrou 13 hospitais e sistemas que entregaram funções de faturamento e cobrança a parceiros externos, vários deles de ponta a ponta.[1] A razão não é cortar folha. É que receber bem virou uma operação de escala, tecnologia e dados que poucos hospitais sustentam sozinhos.
O que está acontecendo no mercado americano?
Grandes e pequenos sistemas de saúde estão entregando o ciclo de receita inteiro a parceiros especializados, em contratos longos. A Becker's Hospital Review registrou, só em 2025, 13 hospitais e sistemas que terceirizaram funções de faturamento e cobrança.[1] Entre eles, o Children's Minnesota, o Benefis e o Firelands, este com seis hospitais, todos em contratos de ponta a ponta com a Ensemble Health Partners, que vão do cadastro do paciente ao fechamento da conta.[1]
O movimento não é novo, mas ganhou escala. Em 2022, a Sutter Health escolheu a R1 RCM como parceira exclusiva do ciclo de receita por dez anos, com a oferta de vagas equivalentes na R1 a cerca de 1.150 funcionários da área; no mesmo ano, a ScionHealth fez o mesmo para seus 61 hospitais de longa permanência.[2] Hoje a R1 afirma atender 95 dos 100 maiores sistemas de saúde dos EUA, e a Ensemble diz administrar mais de US$ 55 bilhões em receita líquida de pacientes.[5]
A pesquisa anual da McKinsey com 215 líderes de prestadores americanos mostra que a onda não acabou: 60% pretendem mudar a estratégia de fornecedores nos próximos dois anos, e três quartos desse grupo querem ampliar a terceirização.[4]
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Sistemas que terceirizaram funções do ciclo de receita em 2025 (Becker's) | 13[1] |
| Contrato da Sutter Health com a R1 RCM (2022) | 10 anos, cerca de 1.150 funcionários transferidos[2] |
| Líderes que pretendem mudar a estratégia de fornecedores em dois anos | 60%[4] |
| Práticas com dificuldade para preencher vagas do ciclo de receita | 58%[6] |
| Custo mediano de cobrança sobre a receita líquida | 3% a 5%[8] |
Por que os hospitais americanos terceirizam?
Porque faltam gente, escala e tecnologia, e as três coisas custam caro para um hospital sozinho. Os motivos aparecem com clareza nos dados:
- Falta de pessoal: 58% das práticas médicas têm dificuldade para preencher vagas do ciclo de receita, e 80% dizem que a escassez crônica aumenta o risco de negativas, segundo a MGMA.[6] A HFMA registra que a terceirização de mão de obra no setor tem migrado para funções não clínicas, que disputam profissionais com outros setores da economia.[7]
- Custo de receber: o custo mediano de cobrança fica entre 3% e 5% da receita líquida; num sistema de US$ 500 milhões, são US$ 15 milhões a US$ 25 milhões por ano só para receber o que já foi atendido.[8]
- Escala de tecnologia: automação e análise avançada costumam estar fora do alcance de um sistema de saúde isolado, mas ficam disponíveis por meio de um parceiro que dilui o investimento entre muitos clientes, argumenta um executivo da Ensemble.[3]
- Um só responsável: quando codificação, contas complexas e cobrança ficam com fornecedores diferentes, cada um tende a culpar o outro pelo problema; com um parceiro de ponta a ponta, a responsabilidade fica num lugar só.[3]
A Ensemble, que vende esse modelo, informa ganhos médios de 2% a 5% na receita líquida e redução de custo acima de 30%.[9] São números da própria empresa, e devem ser lidos assim.
O que pode dar errado na terceirização?
Pode dar errado quando o hospital terceiriza a operação e, junto, a capacidade de cobrar resultado. Dados da consultoria Crowe, citados pela Wisemonk, mostram operações terceirizadas com taxa de negativa final de 2,56%, contra 1,65% nas operações internas, e 33 dias a mais para receber saldos de pacientes.[11]
A FTI Consulting aponta os riscos clássicos: perda de visibilidade sobre o processo, dependência do fornecedor, acordos de nível de serviço mal desenhados e cláusulas de saída fracas.[10] E a conta não termina na fatura. Relatório da Black Book divulgado nesta semana lista oito custos que o hospital costuma esquecer ao avaliar um contrato, entre eles a transição, o período de operação em paralelo, a equipe interna que fiscaliza o parceiro e o retrabalho; 97% dos 207 líderes ouvidos consideram essencial ter dados verificáveis do ganho líquido antes de renovar.[13]
Há ainda uma mudança de rota. Em pesquisa da Black Book com 220 hospitais e sistemas, 79% disseram estar revendo contratos tradicionais em favor de modelos com tecnologia em primeiro lugar, e 72% planejavam levar funções antes terceirizadas para equipes internas apoiadas por IA em até dois anos.[12]
Para onde caminha o modelo de terceirização?
Caminha do terceirizado de pessoas para o operador com tecnologia. Na mesma pesquisa da Black Book, 91% dos líderes disseram que vão exigir IA e automação embutidas em qualquer contrato novo ou renovado.[12] Em outra rodada, 68% estavam avaliando modelos híbridos, em que equipes externas operam plataformas de IA do próprio hospital.[14]
Os contratos acompanham essa mudança. A própria Ensemble recomenda amarrar o acordo a indicadores objetivos: caixa contra a meta, dias em contas a receber, contas acima de 90 dias, negativa inicial e final, dias sem faturar e custo de cobrança.[9]
Leio esses dados como um recado único. O que os americanos compram não é mão de obra mais barata; é uma operação com escala, dados e responsabilidade contratual pelo resultado. Quem terceiriza sem isso troca um problema interno por um problema de fornecedor.
Esse modelo funciona para o hospital brasileiro?
Funciona, desde que o hospital mantenha o controle do que importa. O problema aqui é do mesmo tamanho: a glosa média dos hospitais Anahp gira em torno de 18%, e só cerca de 2% acaba mantida depois de uma negociação longa e burocrática.[15] É dinheiro que volta, mas tarde, com custo de equipe e capital de giro preso.
Já existem no país empresas que oferecem terceirização com garantia contratual de desempenho, assumindo o prejuízo se não reduzirem as glosas.[16] Na minha avaliação, três cuidados separam uma boa decisão de uma dor de cabeça:
- Manter um ponto focal interno que entenda de faturamento e acompanhe o parceiro todos os dias.
- Pagar por resultado medido, com os indicadores do contrato definidos antes de assinar e auditados depois.
- Garantir a saída: dados, regras e histórico das contas pertencem ao hospital e precisam voltar com ele se o contrato acabar.
A lição americana não é terceirizar tudo. É tratar o ciclo de receita como operação crítica e escolher, com números, quem a executa melhor.
Em resumo
- Em 2025, a Becker's registrou 13 hospitais e sistemas de saúde dos EUA que terceirizaram funções do ciclo de receita.[1]
- 60% dos líderes ouvidos pela McKinsey pretendem mudar a estratégia de fornecedores em dois anos; três quartos deles querem ampliar a terceirização.[4]
- Segundo a Crowe, operações terceirizadas tiveram negativa final de 2,56%, contra 1,65% nas operações internas.[11]
- Para 91% dos líderes ouvidos pela Black Book, novos contratos terão de trazer IA e automação embutidas.[12]
Atualizado em 22 de outubro de 2026.
Fontes
- Becker's Hospital Review — 13 health systems outsourcing RCM functions, 18 dez. 2025.
- Becker's Hospital Review — 10 health systems outsourcing RCM, 18 jul. 2022.
- Becker's Hospital Review — The realities of outsourcing revenue cycle operations, 8 mai. 2025.
- McKinsey — Healthcare revenue cycle management at a strategic turning point: Survey insights, 30 abr. 2026.
- Helpware — 10 Best Healthcare RCM Companies in the US, 16 out. 2026.
- Auxis — 5 Benefits of Outsourcing Revenue Cycle Management, 3 jul. 2025.
- HFMA — Labor outsourcing shifts to non-clinical roles, 16 dez. 2025.
- Innobot Health — Outsourcing Revenue Cycle Management: What They Don't Tell You, 19 jan. 2026.
- Ensemble Health Partners (fornecedor) — RCM Outsourcing Misconceptions: A Guide for Hospitals, 3 set. 2026.
- FTI Consulting — Case for Outsourcing Revenue Cycle Management, 5 jan. 2022.
- Wisemonk — Outsourcing Revenue Cycle Management: A 2026 Buyer's Guide, 17 jun. 2026.
- Newswire (Black Book Research) — AI Disrupts Traditional RCM Outsourcing as Health Systems Redefine Vendor Expectations, Black Book Survey, 18 abr. 2025.
- Becker's Hospital Review — The outsourcing costs hospital budgets can miss: Black Book, 22 out. 2026.
- ACCESS Newswire (Black Book Research) — Black Book Survey: Evolving Healthcare Regulations and Reimbursement Policies Accelerate Strategic Shifts to RCM Outsourcing, 17 jun. 2025.
- Anahp — 4º Balanço Observatório Anahp 2024, dez. 2024.
- Economia SC — Empresa de IA para gestão hospitalar chega a Blumenau, 7 out. 2025.



